Tropicália 52: Uma grande injustiça

Olá a todos!
Acredito que quando se passa uma vida inteira fazendo algo que se goste, quando se tem talento para realizar este trabalho, deve ser difícil simplesmente voltar as costas e curtir a reforma, sentar numa bela varanda, aproveitando os raios de sol que brilham no verão, apenas esperando o tempo passar, ou sentar numa também bela poltrona, enrolado num cobertor, enquanto um frio de rachar castiga os pobres trabalhadores do lado de fora do conforto do lar.
Uma rotina de anos e anos, dos melhores anos de sua vida, não pode ser atirada para trás das costas, mesmo quando o cansaço acumulado começa a implorar por um descanso, mesmo quando a mesma rotina teima em sufocar a liberdade de cada um de nós. Liberdade essa que já foi sufocada quando decidimos nos dedicar exclusivamente a uma profissão.
Vejamos o caso do Sr. João.

O Sr. João foi taxista durante exactos 45 anos. Está reformado há 2 semanas.
Durante esses 45 anos de exercício da adorada profissão, sim, adorada, foi sempre o que desejou fazer, mais importante foi a vontade de exercer do que o dinheiro a faturar. Ouviu histórias inacreditáveis, confidenciou segredos de pessoas desesperadas, serviu doentes ao levá-los a hospitais, foi fiel escudeiro de grávidas, idosos e crianças, um seguro “leva-e-trás” de todos os que desejassem desembolsar uns cobres. Bem, nem sempre, já que no coração do Sr. João também havia espaço para a caridade. Ajudou sem cobrar diversas vezes. O dinheiro era importante, muito importante, mas não era tudo.
Ainda com o chapéu de eleição para o exercício de profissão colocado, apesar de manter pintado o cabelo que já deveria ser branco, vagueia por casa sem nada para fazer. A vontade de voltar a pegar no volante e servir a população é enorme.
Após seu banho, saciado o calor, veste o roupão brilhante que tem, tentativa falhada de se aproximar a um de seus ídolos. Porém, apesar de falhada, agrada-lhe sobremaneira aquele roupão, pelo menos é confortável, pensa. Contudo, apesar de gostar de ter seu roupão posto, continuava se lamentando por ter sido obrigado a pô-lo a essa hora da tarde, ainda não havia dado as 18 horas, ainda tao cedo, quantas corridas poderia estar ele fazendo agora, quantos mais poderia estar ele servindo?
Era dia de jantar em família. Vinha o filho, a nora e o neto visitá-lo. Um jantar que não lhe entusiasmava, visto seu estado de espítiro, mas que havia sido preparado com muita antecedência por Dona Rosa, mulher de Sr. João. Conheceram-se no táxi do Sr. João, ainda eram ambos jovens e Dona Rosa ainda uma belíssima jovem. Dona Rosa não o falava, na verdade negava veementemente, mas o Sr. João não poderia deixar de pensar que, para Dona Rosa, ele tinha perdido parte de seu encanto quando bateu com a porta do táxi pela última vez.
Afundado no marasmo de sua nova rotina, pensando nestas e noutras injustiças, Sr. João só emergiu de seus pensamentos quando soou a campainha e sua família adentrou a casa enchendo-a de barulho e confusão.
Jantar em paz. Após ele, o de sempre: esposa, nora e filho na cozinha conversando, Sr. João e o neto juntam-se na sala para ver o RAW. Os dois são grandes fãs da modalidade. Grande orgulho tem o avô por saber ser seu neto tão fã de Ric Flair quanto ele. Pelo menos era, es coisas vinham mudando um bocado desde que Flair regressou ao RAW.
Mais uma semana, mais uma vez Flair, e já começa o neto:
– De novo este velho? Mas o que ele está fazendo no RAW de novo? Ele não sabe o significado da palavra reforma?
Esta última pergunta atingiu dolorosamente o avô.
O neto continuava atacando:
– O velho não consegue se mexer sequer! Não está contribuindo em nada, só serve para saco de pancadas!
Como podeia um rapaz, que era fã do Flair, atacá-lo assim?
– Uma prostituta, verdadeira prostituta! Vende-se ao Vince por um belo cheque, só isso lhe interessa! Qualquer tostão paga este senhor que já vem abanando o rabinho! Eu sou como o Mourinho, “no me piace la prostituizone”!
O avô não entendeu bem a tentativa de italiano do neto mas entendeu bem o que o neto havia dito em bom português e sentiu-se ultrajado por isso.
– Tudo bem – continuou o neto – que mesmo antes de se reformar que não era mais o primor que era antes. Porém sempre pensei que ele fosse diferente da besta do Hogan, pensei mesmo que não seria mais um cãozinho do Vince, que bastava abanar um cheque para ele abanar a cauda.
O Sr. João já não queria mais ouvir. Levantou-se de rompante e foi para o seu quarto sem terminar de ver o RAW.
Abrindo a porta do quarto, viu o roupão brilhante que tinha estendido por sobre a cama. Pegou nele e começou a falhar-lhe como se fosse a pessoa a quem desejaria transmitir estas palavras:

– Vê, Ric, a injustiça por que estamos passando? Comigo foi igual. Eu era adorado, sempre tratado com gentileza por tantos anos. Um trabalhador sério e honesto, qualidades reconhecidas por quem comigo viajava. Tal como você era sempre uma referência de bom entretenimento, de qualidade por excelência. Porém, foi só chegar a idade da reforma que as pessoas já começavam a olhar de lado, a duvidar de meus reflexos, da minha capacidade de ouvir os sons do trânsito, enfim, de minha capacida de desempenhar minha função. Mais uma vez, tal como tu, já que também diziam que não eras capaz de lutar. E como lhe respondeste? Com um combate de despedida de cortar a respiração. Tal como eu fazia quando mandavam uma boca qualquer a minha capacidade de conduzir, fazia uma corrida perfeita, uma bofetada com luva de pelica. Infelizmente os reparos a minha eficiência vinha de todos os lados, inclusive de minha própria casa, também minha mulher começou-se a preocupar sem razão. Não resisti, fraquejei, abandonei, não fui valente como tu.
Gostaria de ser como tu, Ric, que calas os críticos quando adentras os ringues e, recusando-se a lutar, honras a tua retirada. Ou quando pegas no microfone e ainda dás lições a muito marmanjo musculado que lá anda sem saber o quê fazer. Ou quando participas num segmento e sabes dar-lhe credibilidade total. Não Ric, a culpa não é tua desta feud dominante do RAW ser um tédio. A culpa não é tua de os bookers terem de recorrer ao teu talento nato ao invés de dar a chance a um novo talento de maneira adequada.
Ric, a culpa não é tua se tua paixão se sobrepõe a tua idade. Se a vontade for dinheiro, a culpa não é tua se ter se acostumado com um certo padrão que te impede de descer deste. O que importa, Ric, é que demos tudo pelo que fazíamos e agora somos distratados pelos que gostavam do que faziam. E isso por quê, Ric? Por causa simples dos dígitos de nossas idades.
É justa a maneira como te tratam, Ric? É justa a maneira como me tratam, Ric?
Se demos tanto, porque não podemos receber agora?
Quanta ingratidão…
O Sr. joão guardou o roupão e foi dormir.
Até a próxima!

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